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O Abismo do “Tudo me é Lícito” — Parte II

Itamargarethe Corrêa Lima* jornalista, radialista e advogada, pós-graduada em Direito Tributário, Direito Penal e Processo Penal, pós-graduanda em Direito Civil, Processo Civil e Docência do Ensino Superior.

Dando continuidade à reflexão, ainda sob a inspiração dos ensinamentos repassados pelo jornalista espírita Eurípedes Barsanulfo e ancorada na advertência do apóstolo Paulo, passa-se a examinar os desdobramentos do vazio existencial quando não enfrentado em sua origem.

O vazio, uma vez instalado, não permanece estático. Ao contrário, aprofunda-se, comprometendo a saúde emocional e a percepção de sentido da vida. A ausência de propósito, inicialmente difusa, passa a assumir contornos mais definidos, conduzindo o indivíduo a um estado de sofrimento psíquico relevante.

Nesse cenário, a depressão pode ser compreendida não apenas sob a perspectiva clínica, mas também como manifestação de uma ruptura com a própria interioridade. Evidentemente, não se afastam as causas biológicas e psicológicas, que demandam acompanhamento médico especializado.

Contudo, há situações em que o sofrimento revela uma crise de sentido mais profunda, na qual o indivíduo, após investir sua existência em valores efêmeros, se vê desprovido de referências capazes de sustentar sua própria continuidade existencial.

A progressão desse quadro pode conduzir ao desespero. Quando a dor se intensifica e a ausência de sentido se consolida, surge a ilusão de que a interrupção da própria vida representaria uma solução legítima. Trata-se da radicalização da lógica do “tudo é permitido”, agora aplicada à própria existência.

Entretanto, é precisamente nesse estágio que a advertência paulina revela sua dimensão mais contundente. Nem tudo o que é possível convém. A eliminação da própria existência não resolve a origem do sofrimento, outrossim apenas o desloca, agravando uma realidade já fragilizada.

A trajetória que conduz ao abismo não é inevitável. Se o vazio decorre da desconexão, o caminho de retorno exige a retomada de valores que transcendam o imediato. A liberdade, quando orientada por critérios superiores, deixa de ser instrumento de autossabotagem e passa a constituir meio de reconstrução do sentido da vida.

Diante disso, evidencia-se que a lógica do “tudo me é lícito”, quando dissociada de critérios éticos e de um sentido existencial consistente, não conduz à liberdade, mas à desordem interior e ao esvaziamento da própria vida. A ausência de limites não emancipa, ao contrário, fragiliza, desorienta e expõe o indivíduo a um processo silencioso de autodestruição.

A advertência paulina, portanto, não se apresenta como mera restrição, todavia como diretriz de proteção e equilíbrio. Nem tudo o que é possível convém porque nem tudo edifica, sustenta ou preserva a dignidade da existência humana.

Assim, o enfrentamento do vazio existencial não se resolve na ampliação irrestrita das possibilidades, mas na reconstrução de um eixo de sentido que devolva ao indivíduo a capacidade de escolher com consciência, responsabilidade e propósito.

É nesse ponto que a liberdade reencontra sua verdadeira função, não como permissão absoluta, no entanto como instrumento de reconstrução interior e de afirmação da vida.

Essa semana ficamos por aqui. Até breve!!

Categoria: Notícias

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