*Itamargarethe Corrêa Lima* jornalista, radialista e advogada. Pós graduada em Direito Tributário, Penal e Processo Penal. Pós graduanda em Direito Civil, Processo Civil e Docência do Ensino Superior.

A morte, em Itumbiara, Goiás, de duas crianças, uma de 12 e outra de 8 anos, pelas mãos do próprio pai, seguida do suicídio dele, deixou uma pergunta que não se dissolveu com o passar dos dias. Como algo assim pôde acontecer, especialmente quando se trata de alguém investido do dever de proteger e que decidiu destruir?
As explicações imediatas falaram em crise conjugal, desespero e conflito emocional. Em poucas horas, multiplicaram se análises e tentativas de enquadrar a tragédia em categorias compreensíveis. Essas narrativas descreveram circunstâncias, mas não conseguiram alcançar o núcleo moral do que ocorreu.
Eu me choquei. Entristeci. Senti revolta, como qualquer ser humano. A dor é real. A violência e o erro existiram. Nada disso pode ser relativizado.
Contudo, a minha compreensão sobre espiritualidade não me permite permanecer apenas no choque. A maior parte das tradições religiosas reconhece a existência de um Criador soberano, amoroso e justo.
Mudam os nomes e os ritos, outrossim a essência permanece. Há uma inteligência superior que rege a vida. Se a existência fosse limitada a este único capítulo, bastaria morrer para encerrar qualquer responsabilidade.
Alguém poderia praticar um ato extremo e, com a própria morte, apagar as consequências espirituais do que fez. Isso seria justiça? Estaria de acordo com a ideia de um Deus soberanamente justo?Para mim, não.
É nesse ponto que a doutrina espírita, sistematizada por Allan Kardec, apresenta uma explicação coerente. O espírito é imortal. A morte do corpo não extingue a consciência nem elimina a responsabilidade pelos próprios atos. Existe continuidade, aprendizado, lei de causa e efeito.
Reencarnamos sob o chamado véu do esquecimento. Não recordamos conscientemente das experiências anteriores. Esse esquecimento é necessário para que possamos recomeçar sem o peso esmagador das memórias passadas. No entanto, o fato de não lembrarmos não significa que a lei divina tenha sido suspensa.
O Criador não se esquece. A consciência não se dissolve. A responsabilidade não desaparece.
A reencarnação não suaviza o erro nem o torna irrelevante. Pelo contrário, evidencia que ninguém foge das consequências morais do que pratica. Cada espírito responde por seus atos, hoje ou amanhã, nesta existência ou em outra.
Acredito que aquelas almas vieram reunidas naquele núcleo familiar porque havia vínculos a serem reajustados. A família, sob a perspectiva espírita, é frequentemente espaço de reencontro entre espíritos que já partilharam histórias intensas. Não se trata de punição, mas de oportunidade de evolução.
Nesse caso, o pai adiou o amor às almas que lhe foram confiadas como esposa e filhos. Não conseguiu vencer a si próprio. Não superou suas imperfeições morais. Escolheu a violência onde havia a prova do autocontrole. Pelo suicídio, enfrentará consequências espirituais distintas das crianças, porque as escolhas foram distintas.
A justiça divina não é vingança, mas também não é indiferença. Ela é equilíbrio. As crianças seguirão seu caminho evolutivo e o pai seguirá o dele.
Não acredito que a história tenha terminado ali. Se Deus é justo, os reencontros ocorrerão quantas vezes forem necessários, em outras circunstâncias e sob novas condições, até que o aprendizado seja consolidado.
Sem a reencarnação, restaria apenas a ideia de que o mal venceu e de que a morte encerrou tudo. Com ela, permanece a certeza de que ninguém escapa da própria consciência e de que a justiça divina transcende um único capítulo da existência.
Eu me choquei, sim. Eu sofri, sim. Mas compreendo que uma vida não explica tudo. E que nem mesmo o véu do esquecimento apaga aquilo que precisa ser aprendido.
Essa semana ficamos por aqui. Até breve.















