*Itamargarethe Corrêa Lima* jornalista radialista advogada pós graduada em Direito Tributário Penal e Processo Penal pós graduanda em Direito Civil Processo Civil e Docência do Ensino Superior

A posse de Esmênia Miranda no comando da Prefeitura de São Luís, formalizada na tarde de ontem(31), representa, sob o prisma institucional, a continuidade administrativa do grupo político que já conduzia o Executivo municipal. Contudo, para além do rito formal e da transição regular de poder, o ambiente político e social que permeou a solenidade evidenciou um problema mais profundo e persistente.
Durante a cerimônia realizada na Câmara Municipal, não foram raras as manifestações que deslocaram o foco da análise de sua trajetória para a sua condição racial. Em vez de se discutir a formação acadêmica, a experiência administrativa e a capacidade de gestão da nova prefeita, observou-se, com inquietante naturalidade, a insistência em destacar a cor da sua pele como elemento central de identificação.
Chama especial atenção o fato de que tais manifestações não partiram de setores desinformados ou de baixa instrução. Ao contrário, foram proferidas, em diversas ocasiões, por agentes públicos e pessoas inseridas em espaços de poder, detentoras de elevado capital cognitivo e institucional.
Esse dado agrava o cenário, pois evidencia que o preconceito não se limita à base social, mas encontra-se igualmente enraizado nas camadas superiores da estrutura social e política.
Trata-se de constatação relevante, na medida em que revela a naturalização de um padrão de pensamento que atravessa toda a pirâmide social, do topo à base. Quando discursos dessa natureza são reproduzidos por autoridades, o que se verifica não é apenas uma opinião isolada, mas a legitimação simbólica de uma lógica excludente que se perpetua em diferentes níveis da sociedade.
A despeito de possuir formação acadêmica consistente, incluindo mestrado em História, além de experiência concreta na gestão pública, parcela do discurso social ignorou tais credenciais. O que se verificou foi a redução indevida de uma trajetória qualificada a marcadores identitários, com ênfase simultânea em gênero e raça, como se tais elementos fossem suficientes para sintetizar, limitar ou relativizar sua aptidão para o exercício do cargo.
A associação recorrente entre o fato de ser mulher e negra revela a sobreposição de camadas discriminatórias que operam de forma cumulativa. Não se trata apenas de preconceito racial ou de gênero isoladamente considerados, mas de uma intersecção que potencializa a desqualificação simbólica e reforça estigmas historicamente construídos.
A gravidade do fenômeno se agrava pelo fato de que muitos sequer percebem o conteúdo discriminatório implícito nesse tipo de abordagem. Trata-se de uma forma de preconceito que opera de maneira sutil, muitas vezes travestida de comentário casual ou até de aparente reconhecimento, mas que carrega consigo uma carga valorativa historicamente excludente. A indiferença quanto a esse conteúdo revela o quanto tais práticas ainda se encontram enraizadas no tecido social.
Sob o ponto de vista constitucional, esse cenário afronta diretamente os fundamentos da República, especialmente a dignidade da pessoa humana e o princípio da igualdade material. Não se trata apenas de uma inadequação discursiva, mas de uma manifestação que, ainda que indireta, reforça estruturas discriminatórias incompatíveis com o Estado Democrático de Direito.
A impressão que se tem é a de que, para alguns, a cor da pele ainda funciona como um filtro indevido de capacidade, como se fosse, por si só, um fator limitante. E o mais preocupante é que, mesmo diante de um currículo robusto e de uma trajetória construída com base em mérito e qualificação, tais elementos são relativizados, quando não completamente ignorados.
Em síntese, a posse da nova gestora municipal ultrapassa o aspecto formal da transição de poder e se impõe como um momento de reflexão coletiva. A permanência de discursos que insistem em racializar a ocupação de espaços institucionais evidencia o quanto ainda é necessário avançar para que a igualdade deixe de ser apenas um enunciado normativo e se concretize como realidade social.
Ao final, impõe-se uma indagação que sintetiza o problema exposto e revela, por si só, a distorção do debate público: se fosse branca, sua cor de pele seria objeto de destaque?










